Atriz do Palco da vida
                                 Muriel Elisa Távora Niess Pokk

 

         Após ter feito uma faxina na cozinha, dirigi-me à sala para fazer o mesmo.  Enquanto tirava o pó dos móveis, meus pensamentos começaram a divagar... Voltei à minha juventude. Revi a mocinha magrinha cheia de sonhos e alegria; pude ver seu rosto lisinho sem nenhuma marca de expressão, seus cabelos negros na altura da cintura esvoaçando ao vento, seus olhos castanhos brilhando, com aquele brilho especial de quem acredita na vida.

Aos poucos fui vendo esta mocinha se transformar em moça feita. Vi essa jovem vestida de noiva entrando na igreja de braço dado com seu irmão, que com orgulho a levava ao altar.   Eu a vi dizer o sim, toda compenetrada.

Eu a vi já esposa, em seu novo lar, num apartamento apertadinho, mas decorado com muito carinho.

Em seguida, em vários flashs, eu a vi pular de alegria ao saber que estava grávida. Eu a vi radiante comprar o enxoval para seu nenê.

Eu a vi beijando e abençoando seu filho que acabará de nascer.

Eu a vi muito feliz ao saber que estava grávida novamente.

Eu a vi aos prantos na maternidade, após saber que sua filhinha era deficiente mental.

Continuando em meu percurso, eu a vi sendo abandonada por seu marido, e a vi chorar novamente.

Eu a vi lutando com bravura... trabalhando fora durante o dia, dando todos os cuidados que sua filha necessitava à noite e reservando um tempinho para atender ao seu filho.

Eu a vi matriculada no ginásio (de novo) somente para poder acompanhar sua filha todas as noites nas aulas; indo ao curso de computação para depois ensinar à sua menina.

Eu a vi com doçura perdoar seu marido, que lhe pedia perdão e que voltara depois que seus filhos estavam grandes.

Eu a vi com sacrifício pagar a faculdade de seu filho, e, depois a vi cheia de si, vê-lo receber o diploma de psicólogo.

Eu a vi sorrir orgulhosa quando sua filha se casou.

Eu a vi serenamente olhar seu filho no altar e agradecer silenciosamente a Deus por ter cumprido sua missão.

De repente, o telefone toca. Saindo do transe, eu me percebo triste e magoada ... os anos passaram rapidamente sem que eu me desse conta.

O tilintar do telefone continua, dirijo-me rapidamente ao local aonde ele se encontra... Passo em frente ao espelho... Olho-me... Enquanto dou uma ajeitada nos cabelos com os dedos, penso: “ainda vou deixa-los ao natural”.

Rio de mim mesma. Já tentei fazer isso, mas, quando as raízes começam a crescer e cada vez mais aparecem, conscientizo-me de que não sou muito corajosa para tomar tal atitude.

Muitas vezes eu me pergunto: Por que tenho vergonha de mostrar aos outros meus cabelos grisalhos? Será que é por medo do preconceito? Será que é porque a aparência física é importante para a sociedade?

Não encontrando resposta adequada, chego à conclusão de que  vivo no palco da vida, sou atriz da vida real, tenho que representar, usar maquiagem, dizer o texto do script... O grande público  assim exige.

 

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