Libertando-se do Preconceito
 
     Reportagem: Diário Popular – 14.03.2000
 
 
O amor de mãe é capaz de realizar feitos surpreendentes. A aposentada Muriel Elisa Távora Niess Pokk, de 54 anos, que o diga. Há mais de dois anos, ela teve de aprender computação para poder ensinar a filha Rita de Cássia Niess Pokk, de 19 anos, que não era aceita pelas escolas por ser portadora de síndrome de Down. Na mesma época, Muriel iniciou outra luta: conseguir que provedores criassem uma sala de bate-papo destinada aos deficientes físicos e excepcionais.
‘‘Minha filha queria encontrar um namorado e também fazer amigos. Sugeri a ela que entrasse em uma sala de bate-papo’’, recorda Muriel.  

Segundo a aposentada, quando Rita mencionava que era portadora da Síndrome de Down, os internautas reagiam com brincadeiras ou simplesmente paravam de teclar com ela. ‘‘Eu sentia uma dor no coração ao perceber que deixavam de falar com minha filha por preconceito’’, lamenta Muriel.

Para comprovar a rejeição que os usuários de chats têm pelos deficientes, a aposentada começou a entrar em várias salas de bate-papo. Após alguns minutos de conversa, Muriel dizia que era surda, paraplégica ou tetraplégica. Isso era o suficiente para que os internautas a deixassem falando sozinha. ‘‘Fiquei revoltada ao constatar que rejeitavam todos os portadores de deficiência’’, lembra.

Muriel decidiu então escrever para os provedores UOL e STI pedindo que eles criassem um chat destinado aos deficientes. ‘‘Eles alegavam que estavam estudando o assunto e diziam que os deficientes poderiam entrar em qualquer

uma das salas’’. Além das cartas, Muriel preparou um abaixo-assinado com 390 assinaturas reivindicando um espaço para os portadores de deficiência. Mais uma vez não obteve retorno. Começou a mandar cartas para tevês, rádios e jornais, mas ninguém dava atenção.

Para a alegria de Muriel e sua filha, a carta foi publicada no jornal O Globo do Rio de Janeiro no dia 24 de janeiro deste ano. Três dias depois, o provedor

Starmedia entrava em contato com a aposentada para discutir a criação de um chat para os deficientes. ‘‘Fiquei muito contente com a atenção do provedor,

 

que até pediu sugestão para o visual da sala de bate-papo, conta Muriel. No início do mês passado, a Starmedia acabou lançando o primeiro chat voltado aos internautas portadores de deficiência no site Bate Papo (www.batepapo.com.br).
Segundo Muriel, ainda são poucas as pessoas que visitam a sala da StarMedia. ‘‘Até agora a Rita fez amizade com um rapaz do Rio de Janeiro que é paraplégico. Queremos nos próximos meses fazer encontros entre os usuários da sala, como fazem os outros internautas’’, afirma Muriel, que também está criando um site para promover a integração dos portadores de Síndrome de Down.

‘‘Estou pensando em criar um espaço na Internet para que, além de amigos, os portadores de Down possam encontrar sua cara metade. Eles também têm direito à vida amorosa’’.

A aposentada diz que a informática está permitindo que Rita se sinta um pouco independente. ‘‘Ela já ganha seu próprio dinheirinho fazendo cartões de visita e digitando trabalhos escolares em casa. Mas o sonho da vida dela é trabalhar em um escritório’’. Muriel diz que não medirá esforços para tornar realidade o desejo da filha. Afinal, ela não pensou duas vezes em matricular-se em uma escola pública para que a filha pudesse estudar no curso de ensino médio. ‘‘Passei a freqüentar as aulas com minha filha porque a escola disse que ela precisaria ter alguém para acompanhá-la por causa de seu problema. Estudava na mesma sala com ela e à noite repassávamos as matérias’’, relembra emocionada.