Muriel Elisa Távora Niess Pokk, criadora da primeira sala de bate-papo do Brasil para portadores de deficiência, responde ao artigo de Marcela Cálamo Vaz Silva, publicado na Rede Saci.

 

Sala de bate papo para deficientes:

Retrocesso ou abrigo contra o preconceito?

                                                                                         14/07/2003

 

Oi Marcela, tudo bom?

 

Li e gostei muito do seu artigo "Além da Redoma".

Lá você diz que sua visão não é mais a mesma da época em que foi criada a sala para portadores de deficiência, que sua visão está mais ampla e fundamentada, que na sala Deficientes, você fez grandes amigos. Você diz:

"Aprendi com o William a importância da troca, de aprender e ensinar coisas que somente quem tem a mesma condição física pode entender e isso foi algo positivo que encontrei naquela sala".

Diz também que fez na mesma salinha outro amigo:

"O Ednei, que despertou um outro tipo de interesse em mim. Ednei era super antenado com tudo que se relacionasse a deficiência em geral. Não só sabia de todos os avanços sobre as mais recentes pesquisas com células-tronco, mas também fazia parte do primeiro grupo, selecionado pelo Hospital das Clínicas, para testar esses avanços. Quando ele me perguntou qual o nível de minha lesão e eu não soube responder, senti-me envergonhada por minha total falta de informação. Foi a partir daí que comecei a buscar informações sobre mim, retornando à Associação de Assistência à Criança com Deficiência após quinze anos afastada. Também procurei informar-me sobre outras coisas relacionadas a deficiência."

Mesmo depois de ter obtido esses benefícios, você diz que freqüentar a sala é ruim.

Você diz ainda que pode afirmar que existem dois lados importantíssimos. Um benéfico, que produz crescimento e autoconhecimento e, outro muito perigoso, capaz de agravar ou criar barreiras de relacionamentos, promovendo insegurança.

Saiba que em nosso universo há sempre esses dois lados.

Por exemplo, se temos tomar alguma decisão, sempre analisamos os prós e os contras (lado positivo e o lado negativo) antes de tomá-la.

Nas religiões há sempre um Deus (que representa o lado positivo) e um demônio (que representa o lado negativo). Dentro de todos nós há o bem (lado positivo) e o mal (lado negativo), e assim por diante.

Evidentemente que a criação da sala, teve, tem e terá sempre um lado positivo e outro negativo como tudo na vida. Mas posso afirmar-lhe com total segurança (de quem freqüenta a sala anonimamente) que tem havido muito mais positividade do que negatividade.

Você diz que sempre achou esse tipo de coisa, separar pessoas por rótulos, reprovável, então é bem provável que você fique indignada todas as vezes que entra em qualquer chat, pois em todos eles as pessoas são classificadas de alguma forma, não tem como fugir desse tipo de classificação. Eu acho que classificar um chat é muito bom, pois assim ficamos sabendo em que tipo de sala estamos entrando.

A princípio, você ficou irritada porque as pessoas perguntavam:

"Você é deficiente?";

"Qual a sua deficiência?".

 Mas que mal há nisso? Nas salas comuns as perguntas são:

"Você é casada?";

 "Como você é”;

"Como você está vestida".

Se você responder a essas perguntas, vão até te perguntar:

 "Você está de calcinha” (risos).

Isso irrita? Irrita e muito, mas é assim que funciona.

Quantas vezes ao deixar de responder essas duas últimas perguntas, concluíram que eu devia ter problemas de aceitação com relação à minha idade, com minha aparência física e que provavelmente eu tinha sério problema com sexo etc. Como você também, não entendo porque numa sala de chat "normal" querem saber como sou fisicamente, se sou casada, se mesmo sendo casada eu tenho namorado etc... Para que saber tudo isso se estamos lá só pra conversar. A aparência física não importa... Importa o conteúdo da conversa.

Você diz ainda, que algumas pessoas com quem conversou se mostraram arrogantes, presunçosos... O que não falta são esses tipos de pessoas nas salas de chats "comuns". Não é a sala, minha querida amiga, mas o ser humano que encontramos nela.

Por meio da sala para portadores de deficiência você conheceu o Willian, ali vocês se ajudaram a aprender a repartir, divulgar, esclarecer dúvidas, promover o crescimento mútuo e continuo. Enfim vocês "cresceram juntos", segundo suas próprias palavras.

Depois de tudo que você aprendeu na sala Deficientes, só espero que você continue a freqüenta-la (mesmo que seja algumas vezes por mês), para passar aos outros freqüentadores da salinha (que estão necessitando de uma boa amiga), o que você recebeu através de outros internautas que lá conheceu.

Jesus falou: “tudo aquilo que receberes de graça, de graça também darás.”

A maioria das pessoas que freqüentaram, freqüentam e freqüentarão a sala fizeram, fazem e farão grandes amizades.

Você diz que em sua volta às salas por idade (Olha aí, você escolheu a sala por idade, será que você é preconceituosa?), tomou um grande susto. Eu lhe pergunto:

Por que? Por que se assustou se antes você já as freqüentava normalmente? Será que não é porque sempre que entrou num chat precisava primeiro preparar-se psicologicamente (mesmo que inconscientemente), "tatear o terreno" para depois falar sobre sua deficiência?

Eu não chamaria de susto o que você sentiu ao voltar a sala de chat "normal", eu chamaria "medo do preconceito". A sala Deficiente deu-lhe segurança e descontração para conversar sem nenhuma tensão.

Espero que você tenha percebido o valor da sala de bate-papo Deficiente criada sem nenhum fim lucrativo com todo amor e respeito.

Nos encontros (dos freqüentadores da salinha), realizados em restaurantes (no último domingo de cada mês), muitas pessoas se conheceram pessoalmente. Três casais já se casaram e há um casalzinho noivo, de casamento marcado.

Não há segregação, pois, a sala Deficientes é aberta a todos. Tanto isso é verdade que entre os pares formados sempre um deles não portava deficiência.

Não são todos os dias que uma pessoa portadora de deficiência tem disposição para enfrentar o preconceito. Tem dias que o que elas querem é mais um papo descontraído sem se preocupar com mais nada. São nesses dias que a sala Deficiente se torna um bálsamo para elas.

Qual o mal que a sala para deficientes pode causar a seus freqüentadores, se são livres para ir e vir. Na minha opinião, ela só causa coisas muito boas como segurança e bem-estar.

Você diz em seu artigo:

"O papo fluía bem humorado, quando, não me lembro porque, pensei em falar algo relativo a minha deficiência. Nesse instante, fui tomada por um sentimento muito negativo, pois quando me lembrei de que não estava na sala para deficientes, uma insegurança imensa tomou conta de mim... não sabem que sou paraplégica". Foi uma sensação tão ruim, apavorante".

Pois é essa sensação que os portadores de deficiência sentem sempre que entram em chat comum... Essa sensação é desgastante e acaba trazendo outros problemas como a depressão.

Agradeça a Deus por você ter tido em sua vida alguém que a ajudou a ser essa mulher forte e batalhadora, que enfrenta seus obstáculos de frente (parabéns)... Compreenda que há muitos e muitos que não têm sua força e sua determinação e nunca tiveram alguém para fazê-los superar suas dificuldades.

A sala para portadores de Deficiência não é um retrocesso... Senão o seriam também a APAE e todas outras escolas para portadores de deficiência mental, escolas para portadores de Deficiência Visual e a própria AACD, uma vez que já existe a inclusão em escolas normais.

Seriam ainda consideradas um retrocesso e preconceituosas as salas de chat por idade, por sexo, bruxaria, Ocultismo, Religiões (católica, evangélicas, testemunhas de Jeová, espiritismo etc), a salas de lésbicas e afins, de gays e afins, descasados etc. Então, seriam os provedores também preconceituosos?

Talvez, você tenha sorte nas salas que freqüenta (por idade), talvez tenha encontrado sempre verdadeiros seres humanos. Mas isso não é comum. A verdade doída é que isso é muito difícil de acontecer. O mais comum é mesmo ser discriminado.

Antes de criar a sala também visitei muitas e muitas salas de chats. Salas por idade, credos, sexo, descasados etc. Em cada uma delas eu falava a idade correspondente à do meu interlocutor, o papo ia tão bem que até pediam meu e-mail, icq, msn ou telefone. Antes de dar-lhes meu endereço eletrônico, eu falava que era deficiente, cada vez falava uma deficiência diferente. A partir daquele momento a conversa ficava por ali mesmo e, dificilmente, a outra pessoa voltava a pedir meu e-mail, isso quando não me deixavam esquecida, num cantinho da sala.

Há sim preconceito, principalmente contra os tetraplégicos (pois como você mesmo disse, todos pensam que um tetra, não mexe nada do pescoço pra baixo), contra os surdos (pois os mesmos escrevem errado, não usam o verbo corretamente, não usam preposições, artigos etc.)

Quem está do outro lado ou faz gozação ou acha que é brincadeira. E os portadores de deficiência mental (pois também não sabem escrever corretamente e muitas vezes não entendem algumas palavras diferentes).

Dizer que não há preconceito é querer tapar o sol com a peneira.

Quando criei a sala para portadores de deficiência não foi só pensando na minha filha, mas foi pensando em todos que como ela, sofriam ao serem discriminados nas salas "normais".

Tive toda a certeza do mundo que acertei ao criar essa sala para portadores de deficiência, quando um rapaz tetraplégico (que não se mexia do pescoço para baixo) sorrindo falou-me o seguinte: "Obrigado Muriel, com a criação da salinha voltei a viver, posso conversar a vontade e dizer sem receio que sou tetraplégico". Até hoje ao me lembrar dessa frase, fico muito emocionada.

Acredito que a criação da sala para portadores de deficiência não foi algo errado, senão eu não teria recebido o apoio que recebi de todos os que me ajudaram, também não teria conseguido uma lista imensa de assinaturas no meu abaixo assinado e, finalmente, não teria conseguido criar a sala.

Vários jornais me apoiaram, entre eles os jornais: Diário Popular (atual Diário de São Paulo), São Paulo, caderno informática, 14/03/2003; "O Globo", Rio de Janeiro, 07/02/2000; Diário do Nordeste, Ceará, 28/02/2000, “O Estado de São Paulo” 14/02/2000.

Os Deputados Roberto Engler e Deputada Célia Leão (cadeirante - acidente automobilístico) convidaram-me a comparecer na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo para uma entrevista. Também consta "um voto de louvor" na Ata dessa mesma assembléia.

Um grande abraço,

Muriel Elisa Távora Niess Pokk