DE IGUAL PARA IGUAL

                                             Muriel Elisa Távora Niess Pokk

 

Ao comentar com amigos que não conseguia entender o comportamento de algumas pessoas, os mesmos explicaram-me que em sua religião eles acreditam em vários graus de evolução espiritual. A partir desse momento, passei a acreditar nas explicações dadas por eles.

Só mesmo crendo nelas é que posso compreender a falta de interesse de algumas pessoas em não proporcionar ao portador de deficiência toda a estrutura necessária para que ele se torne independente; a frieza de outras que usam a doença e a deficiência dos seus semelhantes para enriquecerem; a necessidade que têm os portadores de deficiência e seus familiares de irem à luta todos os dias, num processo desgastante e cansativo, para conseguirem os seus direitos, direitos esses, que já lhes são garantidos por lei; o descaso pessoas que não entendem que, perante Deus e a sociedade, todos somos (ou deveríamos ser) iguais.

Essas mesmas pessoas não compreendem que, de um momento para o outro, podem se tornar portadores de deficiência, experimentando, na própria carne, as agruras pela qual passa um deficiente ao sentir necessidade de ir ao banheiro e não poder, por não encontrar um adaptado; de ir a um restaurante e ter de pedir ao garçom que lhe diga o que há para comer e de não poder desfrutar a leitura de um livro que adoraria ler, porque o menu e o livro não estão escritos em braile; de tentar se comunicar com alguém e não encontrar  alguém que  entenda os seus gestos, ou seja que fale a linguagem  Libras.

            Todos nós temos o direito de transitar livremente por todos os lugares, passear ruas, ir ao teatro, cinema, restaurante, escolher um cardápio, atravessar uma avenida com segurança.

Portanto, um usuário de cadeira de rodas o tem direito de se locomover por todas as vias públicas sem correr o risco de ser atropelado, para isso sendo necessário que sejam criadas pistas exclusivas para cadeiras de rodas, tipo de ciclovia, que também poderiam ser usadas por ciclistas que correm o mesmo perigo. Ele também tem o direito de tomar seu ônibus e ir para onde necessitar, sem precisar de ajuda de ninguém, mas para isso há necessidade que todos os ônibus sejam adaptados, porque há portadores de deficiência em todos os lugares.

Os Metrôs teriam que ter rampa de acesso, elevadores ou elevador de corre-mão. Os trens devem ter degraus se ajustem ao local de embarque.

O deficiente visual tem direito de caminhar pelas ruas, sem “afundar” seus pés em buracos, cair em bocas de lobo abertas, ou tropeçar em calçadas cheias de entulhos e mesas de barzinhos.

Os semáforos devem ser sonoros, para que o deficiente visual possa atravessar ruas sem riscos. Também tem o direito de fazer-se acompanhar de cão-guia.

Livros, revistas, avisos, menus também deve ser publicados em Braile. Os jornais devem prioritariamente ter um caderno publicado em Braile com as principais noticias, para que o deficiente visual tenha informações necessárias para ficar atualizado com as noticias do Brasil e do mundo.

A linguagem de Libras deve fazer parte do currículo escolar. Ela deve começar a ser ensinada desde o primeiro ano do primeiro grau.

Para as crianças será fácil o aprendizado. Os infantes a aprenderão como se fosse uma brincadeira e, portanto não verão nenhum obstáculo. Da mesma forma ensinarão aos seus vizinhos e amiguinhos da redondeza. Posteriormente nas brincadeiras do dia-a-dia, se comunicarão entre si com esses sinais, como se fossem códigos “secretos”.

Ao aprimorar o aprendizado no segundo grau, os adolescentes por serem mais sensíveis se conscientizarão rapidamente da necessidade da comunicação entre o deficiente auditivo e o dito normal, e, assim, passarão a ensinar aos seus pais, parentes e amigos.

Nas faculdades, se levado esse ensinamento a todos os alunos, rapidamente a linguagem de Libras estará difundida em todo o Brasil e, com certeza, num futuro bem próximo teremos muito mais integração. Veremos surdos e ouvintes conversando animadamente numa coexistência perfeita.

            De outro lado, é pena que algumas pessoas cobrem por uma consulta valores exorbitantes, apenas porque se tornaram especialistas em alguma doença ou deficiência.

Por acaso os portadores de deficiência ou as pessoas com  doença grave têm o coração nos pés? A cabeça na barriga? Os olhos nos joelhos? São sem sangue, sem coração ou movidos a algo que não seja comum ao ser humano dito normal?

Não!

Eles apenas portam doenças, deficiências e, algumas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo.

Então por que tudo que se relaciona ao tratamento deles é tão caro? Por que são olhados por esses espíritos não evoluídos como se fossem seres de um outro planeta?

Porque são usados como se fossem apenas caixinhas mágicas de onde se tira dinheiro que nunca acaba.

Assim, dentro de um redemoinho de emoções, vejo as dificuldades e as injustiças que enfrenta um portador de deficiência.

Tenho fé em Deus e muita esperança que todos os que necessitem de cuidados especiais tenham sobre si olhos de espíritos evoluídos e assim tenham toda a atenção que precisarem, com amor ao ser humano e não amor ao dinheiro.

E é por tudo isso que batalho arduamente. 

Tenho fé que um dia ainda vou ver esses meus sonhos realizados.

 

Texto registrado em Cartório