Falando um pouco de Preconceito
                                                  Muriel Elisa Távora Niess Pokk

 

Após ter presenciado um fato que muito me abalou em uma escola especial, resolvi fazer uma pesquisa do comportamento humano em escolas diversas. 

O fato ocorreu quando matriculei minha filha em uma escola especial muito conceituada.

Enquanto eu aguardava para falar com a diretora, fique observando através da janela, a chuva cair. Para minha surpresa, pude ver que uma moça empurrar, para fora da sala de aula, minha pequena Rita de 4 anos, portadora da Sindrome de Down.  Como a menina insistisse em querer voltar para a sala, essa moça fechou a porta da classe, deixando-a do lado de fora. Rita caminhou para o pátio e ficou brincando sob a chuva.

Rapidamente fui ao encontro da menina, pequei-a no colo e dirigi-me à diretoria. Expliquei à diretora que ela precisava contratar professoras especializadas. Ela respondeu que todas as professoras que ali se encontravam haviam feito especialização no exterior.

Desci e fui falar com “professora especializada”. Perguntei-lhe porque fizera aquilo com a menina. A mesma respondeu que minha filha era uma “peste”, não obedecia e não parava sentada.  Que ela precisava de um castigo.

 

Após essa passagem, resolvi fazer uma pesquisa em escolas.

O que pude observar é que muitas vezes até mesmo as próprias escolas especializadas através de seus professores, empregados e dirigentes demonstram incapacidade de saber lidar com portadores de deficiência, mais acentuadamente as que portam deficiências mentais.

Pareceu-me uma mistura de preconceitos, falta de preparo psicológico e porque não também um pouco de amor.

Para fazer essa pesquisa, escolhia uma escola e marcava uma entrevista. Assim foi que passei a observar o comportamento dos profissionais em relação aos alunos especiais.

Enquanto esperava para ser atendida, vi algumas atitudes de carinho, mas vi muito mais vezes, atitudes que me revoltaram.

Os casos que mais mexeram comigo foram.

1) Minha entrevista estava marcada para as 17:00h (saída dos alunos).

Ao chegar à escola.

Uma jovem senhora (sozinha), chorava no pátio. Em voz alta dizia: “Meu Deu, meu Deus, me ajuda a encontrar a minha filha”.
Penalizada aproximei-me dela, e perguntei-lhe o que estava ocorrendo.
Ela me respondeu que chegara atrasada à escola. E que acabavam de lhe informar havia desaparecido. Disse-me ainda que sua filha de 5 anos era portadora da síndrome de Down, e que a criança saíra da escola, sozinha pelo portão principal, sem que a porteira tivesse notado, pois a mesma abandonara a porta (sem trancá-la) para ir ao banheiro.

Apontou-me uma moça que estava há alguns metros de distância de braços cruzados, e falou que era a professora da minha filha.
Fui falar com a professora (professora???) especializada (especializada???), e perguntei-lhe porque não havia ficado com a menina até a mãe chegar. E ela sorrindo tranqüilamente respondeu-me:
 -“Não sou babá de aluno deficiente, sou professora. A mãe tem obrigação de estar aqui no horário da saída.”

1.      1.                 Aguardando minha vez de ser entrevistada, desta vez em uma escola para portadores de deficiente auditiva, comecei a bater papo com uma mãe que também que estava ao meu lado.

Expliquei-lhe o que estava fazendo ali. Então ela me contou sua história.

Disse-me que ao atender alguém que batia à sua porta, levou um susto... era sua filha de 10 anos. Continuou dizendo-me que ficara transtornada ao imaginar que a menina poderia ter morrido atropelada, pois havia atravessado duas grandes avenidas. Sem que alguém tivesse notado a menina saiu pois alguém havia esquecido a porta da escola aberta.

Pediu que eu entrasse com ela, para ouvir o que a diretora tinha a lhe dizer.

Entrei, sentei-me a seu lado  e fiquei ouvindo a conversa.

A mãe pedia uma explicação para a falta de atenção na portaria. A diretora respondeu, que a mãe tinha razão em estar um pouco tensa, mas que o fato já havia ocorrido e que não importava quem tinha deixado a porta aberta. A mãe indignada e ameaçava ir à Secretaria de Educação. Foi interrompida pela diretora que lhe propôs o seguinte, ela não faria a denúncia e em troca a escola aprovaria sua filha naquele ano e nos anos seguintes... mesmo que ela não tivesse condições de ser aprovada.

Outra escola outro fato

Pude ver uma menina que portava aparelho em ambas as pernas e locomovia apoiada num par de muletas. Com sacrifício imenso a mesma subia uma por uma escada. A cada degrau que subia, ficava se equilibrando para não cair. 

Comentei com uma senhora que estava ao meu lado na sala de espera, que aquilo era um absurdo. Logo fiquei sabendo que aquela senhora era a mãe da menina.                 

Ela contou-me que estava lá pela 5ª vez, para pedir novamente a transferência da sua filha para o andar térreo.

Pedi para acompanhá-la.

Entramos, a diretora nos fez sentar, serviu-nos um cafezinho e perguntou àquela mãe tão desgastada o que a trazia ali (apesar de já saber qual era o assunto).

A resposta veio de imediato: “Quero que minha filha seja transferida para a classe do andar térreo”.

Alegando não haver vagas, a diretora recusou-se a atender a tal pedido. A mãe irritada retrucou que poderia ser feita uma troca com outra criança que tivesse outro tipo de deficiência.

A diretora sorriu e respondeu: “Se a senhora acha que não dá para sua filha estudar aqui, tire-a da escola.”

 

Mais uma escola, mais um fato

A diretora pediu-me para que eu entrasse, mas não lhe dei atenção, acabara de ver uma mãe chorando sair de sua sala e fui de encontro dela. Ela caminhava de cabeça baixa,deixando as lagrimas correrem.
Perguntei-lhe o que ocorria. E ela me disse que a diretora acabara de recusar seu filho, só porque o menino não tinha uma perna e ela não tinha condições financeiras comprar uma prótese. E havia lhe dito ainda, que as outras crianças iam ficar chocadas, e que era melhor ela procurar outra escola.  Continuou dizendo-me que tentara explicar-lhe que a escola ficava perto de sua casa, e que isso iria facilitar muito sua vida, pois como ela trabalhava, a avó do menino é que iria levá-lo e buscá-lo todos os dias. Que a diretora, simplesmente lhe responderá:
“Isso é um problema da senhora e de sua família, nós não temos nada com isso”.

 

Para que minha pesquisa ficasse ainda mais completa, no horário de saída fiquei na porta de escolas para portadores de deficiência. Meu intuito... Observar as expressões e atitudes das pessoas que esperavam pelos alunos. Raramente vi estampados no rosto de pais, parentes etc, um sorriso ou um sinal que demonstrasse prazer e alegria ao seu ente querido vir ao seu encontro. Nunca vi braços abertos (como se dissessem venha para mim) a espera de seu corpinho para um abraço. Jamais escutei “eu te amo”.

Às vezes, vi um ou outro motorista, uma ou outra babá, dar em sua criança um abraço frio e desinteressado. 

Normalmente o adulto ficava na porta da escola conversando, quando sua criança saia, ele se despendia dos amigos (amigas), e sai andando rapidamente na frente enquanto a criança especial ia andando devagar atrás, outras vezes seguram-na pela mão e andavam tão rapidamente que parecia que a criança está sendo “arrastada” pelo adulto que a leva.

Fala-se em leis, em inclusão, mas, a maior de todas as leis, é a lei do Amor ao próximo, e quanto mais próximo maior deverá ser essa lei.

Texto registrado em cartório