Exercer uma Disciplina Calma

Permanecer calmo com os filhos portadores de TDAH e estabelecer hábitos eficientes de disciplina são duas atitudes inseparáveis. Ficar calmo e disciplinar com consistência traz como resultado uma criança que compreende e assume responsabilidade por suas próprias ações e comportamento.O pai de um garoto de 9 anos traz um exemplo claro:

"Acho que a maneira que trato Marty agora não é nem um pouco semelhante à que tratava antes. Costumava pensar que ele era apenas uma criança mimada, que não se controlava enquanto não conseguia o que queria. Se não conseguia, dizia coisas do tipo "Odeio você", ou murmurava coisas desagradáveis a meu respeito. Eu literalmente corria atrás dele pela casa para poder extravazar minha raiva.

Depois que foi diagnosticado com TDAH e que começamos com a medicação, pensei que ele iria parar um pouco com aquele comportamento (horrível) que tanto incomodava a minha esposa e a mim. Naquela época, não entendi que uma mudança dele estava ligada à uma mudança nossa, especialmente minha, porque minha esposa era muito mais tolerante e compreensiva com seu comportamento. O fato dele estar tomando remédio e continuar fazendo o que não devia me deixava mais zangado ainda.

Não sabia como fazê-lo agir da maneira certa. Apesar de minha esposa dizer que eu devia prestar atenção à maneira como reagia a Pete, isso tinha pouao influência na maneira como eu o tratava. Acredite se quiser, as coisas começaram a mudar depois que li um artigo de revista sobre como disciplinar uma criança. Ao acabar de lê-lo, fiquei chocado ao perceber que, basicamente, fazia tudo para garantir que Pete não desenvolvesse autocontrole e autodisciplina. Os gritos e punições que usava somente faziam com que ele se sentisse mais desamparado e fora de controle.

Logo depois desse episódio, li outro artigo sobre TDAH. Compreendi melhor o que se passa dentro do corpo e da mente de Pete. Suponho que me tornei mais sensível ao que ele está passando. Comecei a ler mais a respeito de como ajudá-lo quando fica fora de controle.

Hoje em dia, raramente grito. Deixo ele saber o que se espera dele e o que é preciso acontecer para conseguir o que quer. Acho que o fato de não gritar e permanecer calmo teve um efeito positivo. Vejo que ele está bem mais responsável e capaz de ouvir.

Esse era o ponto principal do artigo: não ficar irritado com o que seu filho faz, ser claro a respeito do que se espera, ser claro quanto às regras da família e quanto aos limites da família em relação a determinados comportamentos e escolhas. A coisa mais contra-producente que se pode fazer é gritar ou bater em um filho. Definitivamente, isto faz a criança evitar assumir o que fez."

 

O Paradoxo dos Pais

Quando um pai começa a aceitar o comportamento do filho, acontece um interessante paradoxo: o comportamento problemático diminui de freqüência, intensidade e duração. Isto não significa que o comportamento inadequado é aceito. Na realidade, a criança é aceita pelo que é e pelo que pode ou não fazer em determinado momento. Também não quer dizer que o TDAH pode ser usado como desculpa para um comportamento inadequado ou desrespeitoso. Podemos e devemos responsabilizar nossos filhos pelo que fazem, mantendo uma posição de amor e apoio.

Este outro exemplo mostra como a mudança de atitude do pai para com o filho mudou a relação entre ambos:

Quando Paul não está tomando remédio e suas emoções estão soltas, se digo alguma coisa que o irrita, o que não é difícil, ele imediatamente diz alguma coisa do tipo "Cala a boca" ou "Não enche". Levei um tempo para aceitar o fato que é seu lado impulsivo aparecendo. Nesse momento, ele realmente não consegue controlar o que está dizendo.

Quando está tomando remédio, esse tipo de resposta é muito raro. Também reajo de maneira diferente agora, de modo que ele não fica muito tempo nos sentimento negativos. Posso sentir que ele quer dizer ou fazer algo diferente, mas surge a necessidade e ele acaba soltando o que não deve. Depois que minha atitude mudou, os impulsos mais intensamente negativos acontecem com menos freqüência.

Este outro exemplo sugere como até mesmo o mais difícil TDAH pode responder positivamente a uma estrutura familiar sólida e apoio constante.

"Tenho visto Quint usar muitas das técnicas e estratégias que minha esposa e eu usamos com ele durante os últimos anos. Se está ficando muito zangado e agressivo, sai temporariamente da situação para se acalmar, focalizar e descobrir exatamente o que está acontecendo e como ele está contribuindo para o problema. Estamos começando a ver o resultado de anos de trabalho, em que mostrávamos como fazer as coisas e o apoiávamos. Aos 4 anos, quando foi diagnosticado, ele era agressivo, agitado e difícil de controlar. Agora, aos 8 anos, ainda tem suas dificuldades, mas não é nada comparado ao que era antes. Vejo que Quint é um menino feliz e seguro. Teria sido fácil ficar zangado ou frustrado quando ele era uma criança difícil. Mas, com orientação, troca de experiências com outros pais e ajuda profissional, Quint está bem e vai continuar assim. Cada dia ele aprende a lidar melhor com o seu TDAH."

Ser pai conduz a um nível de responsabilidade sem paralelos em qualquer outra área da vida. Filhos são mais do que uma extensão: representam todo o potencial e as possibilidades que o mundo pode oferecer. Têm a oportunidade de ultrapassar nossas expectativas e de apresentar uma excelência nunca antes demonstrada. Enorme responsabilidade é colocada em seus ombros, para que sejam bem sucedidos, para que façam boas escolhas, vivam valores sólidos e sejam bons cidadãos. Freqüentemente, espera-se que aproveitem oportunidades perdidas pelos pais ou que construam uma escada magnífica que os leve e, por extensão, aos pais, em direção de um sucesso individual. Espera-se que curem feridas históricas. Entretanto, os pais devem, na realidade, enfrentar as mesmas batalhas que enfrentaram, sentir os mesmos desapontamentos que eles sentiram e aprender, da mesma maneira que eles aprenderam, a encontrar sentido num mundo imprevisível

Quando um filho tem o pai como guia, não precisa enfrentar o mundo sozinho. Ao mesmo tempo que os filhos podem oferecer uma oportunidade para a cura, o que realmente oferecem é a chance de viver honestamente, demonstrar integridade, dar o exemplo do perdão e da compaixão. Pais podem dar aos filhos o que não tiveram física e emocionalmente. No entanto, como muitos pais aprenderam com o tempo, é muito mais fácil proporcionar conforto físico do que o emocional que não receberam. Pais, mais do que as mães, têm que superar preconceitos sociais e de gênero para poderem oferecer a seus filhos, especialmente aos meninos com TDAH, o nível de apoio emocional que eles necessitam.